Combinar a mensagem e comunicação à idade das crianças é fundamental
O Dia das Crianças passou, e além de presentear os pequenos, que tal aproveitar a data para ensina-los sobre algo que eles vão levar para a vida inteira: educação financeira? O assunto pode ser chato e muitas vezes é visto como tabu, mas mesmo quando não se fala especificamente sobre o dinheiro, as crianças observam os comportamentos e comentários que são feitos perto delas.
“A criança, mesmo antes de alfabetizada, pesca o comportamento dos pais, ou das pessoas mais próximas afetivamente, como avós e tios. Se essa pessoa tem uma relação negativa com o dinheiro, a criança vai absorvendo essas impressões e pode lá na frente reproduzir o comportamento, porque não sabe fazer diferente.
Quando falamos em organização financeira, é um hábito. E quanto mais cedo a gente adquirir esse hábito, melhor. Claro que respeitando as faixas de aprendizado.
Crianças de 5 anos: foco no visual
Nessa faixa de idade até cinco anos, o essencial é introduzir para a criança o conceito do que é dinheiro de forma lúdica e a importância dele no dia a dia. “A meu ver, os pais podem começar a colocar o tema em conceitos do dia a dia, exibindo o que pode ser comprado com dinheiro”.
Enquanto a criança ainda não foi alfabetizada, também sugerimos focar em questões mais visuais e familiarizar a criança com os conceitos de números e quantidades. “Vá com a criança no mercado e peça para ela pegar 4 laranjas, e vá contando com ela. Ou vá para a cozinha e peça a ajuda da criança para separar as quantidades de açúcar para um bolo”. Essas atividades beneficiam a desenvolver a noção de quantidade e a criança começa a entender que alguns itens têm mais valor do que outros.
Além disso, já dá para começar a juntar dinheiro com a criança em cofrinhos – de preferência, transparentes. “Se a criança é muito novinha, talvez só o peso do cofrinho seja muito abstrato, mas se o cofrinho for incolor, ela vê a quantidade de moedas crescer”.
Sugerimos ainda separar o dinheiro em diferentes cofrinhos, a depender do objetivo: um para comprar um presente de Natal, outro para doar para uma instituição, e outro para comprar um presente para um amigo(a), por exemplo. Isso ajuda, primeiro, a fazer a criança por na cabeça a importância do planejamento. Mas permita também que a criança faça suas próprias escolhas com o dinheiro: se faltarem R$ 10 para comprar o presente do amigo, ela pode tirar R$ 10 do cofrinho destinado ao presente para ela mesma. “Ela começa a entender que, por mais que tenha desejos ilimitados, ela tem recursos escassos e vai ter que tomar decisões.”
Aos 10 anos: semanada e tarefas remuneradas
Com essa idade, a criança já consegue lidar melhor com números, sabe somar e subtrair. “Os pais já conseguem incluir temas como desperdício, preço, gastos, uma preparação para a consumo consciente”. “Já dá para começar a mostrar a diferença entre necessidade e desejo, a ideia de preferências”.
Além disso, já consegue entender melhor o conceito do tempo. Mas alertamos que ainda é difícil para a criança planejar algo de mais longo prazo. “Para eles, o futuro são as férias, o final de semana, os planos mais táteis. Ao invés de falar em meses, prazos, datas, diga que algo é para o Natal, é para o Dia das Crianças, para as férias, ou para o dia que ela for para a casa da vovó. A gente tem que trazer uma relação mais real”.
Justamente por essa maior dificuldade de entender períodos mais longos de tempo, sugerimos uma “semanada”, em vez de mesada. “Se você der um dinheiro para quatro semanas, a criança vai se sentir rica na primeira semana e não vai ter a dimensão da quantidade de tempo e dinheiro que ela tem que se organizar”.
Quando a criança tem uma mesada ou semanada, começa a notar que o dinheiro não é infinito e que é preciso fazer escolhas. Recomendo entretanto, que os pais tenham um acompanhamento dos gastos, até para auxiliar a criança a se organizar. “O menor passa a gerenciar o próprio dinheiro, começando a desenvolver cálculos mais complexos, e a lidar com as consequências das próprias escolhas. Vão ver que ao poupar no curto prazo, vão ter méritos no longo prazo”.
Outra dica que damos é recompensar a criança por algumas tarefas, como lavar o carro. “Não é recompensar por arrumar a cama ou lavar o prato em que comeu, isso é obrigação. Mas é recompensar por algo a mais. A criança pode até ficar cansadinha de fazer essa tarefa extra, mas ela também entenderá que é uma escolha e que seu esforço será recompensado. Assim ela também começa a associar o dinheiro ao trabalho e à disciplina.”
Sugerimos também deixar as crianças dessa idade organizar as contas que chegam pelo correio. Assim, começam a compreender que coisas como luz, gás, água, telefone e cartão de crédito custam caro.
Jovens de 15 anos: o valor do dinheiro e os juros
Na adolescência, há jovens que já trabalham e contribuem com as contas dos pais e contas da casa e aqueles que ainda são sustentados pela família. Mas, via de regra, as pessoas com essa idade já têm uma clareza maior do valor das coisas, de produtos e marcas que são mais caros ou mais baratos.
É um momento importante para começar a instruir o jovem a como traçar metas, poupar e a pensar no futuro. “Nessa etapa é legal o adolescente reconhecer através dos pais a importância do trabalho e do esforço financeiro. Por na cabeça que se poupar hoje, vai ter uma recompensa maior no longo prazo. E nessa época, o adolescente já tem desejos mais caros, como uma viagem, celulares, videogames. Muitos deles vão ter valor superior ao da mesada, então é essencial já ter a ideia de poupança”.
Nessa idade também já faz sentido explicar para o jovem sobre os juros. “Você inicia explicando que, ao deixar seu dinheiro no banco, o dinheiro não fica parado em uma caixinha, mas será emprestado para outra pessoa, e essa outra pessoa vai pagar um aluguel para usar o seu dinheiro”, diz. “E quanto mais tempo deixar esse dinheiro emprestado, maior vai ser a rentabilidade. E entra a questão da disciplina.”